Vamos falar sobre relacionamentos abusivos?

Não conheço uma só mulher que não tenha vivido ou vive um relacionamento abusivo, seja em maior ou menor grau.

Sou mulher, sou filha, sou mãe, sou amiga, sou irmã, sou tia. E dentro de qualquer relação que eu tenha vivido ou vivo, eu sou “vítima” ou mesmo “sem querer”, sou abusadora dentro dessas relações.

Por que coloquei palavras entre aspas? Para destacar uma coisa muito importante: as duas pessoas que vivem uma relação abusiva são responsáveis por ela. Seja no papel do abusador, seja no papel de vítima, cada uma tem sua parcela de responsabilidade. E identificar isso é o primeiro passo para conseguir sair de uma relação abusiva.

Mas o que podemos considerar como uma relação abusiva? Eu acredito que seja uma relação que não tem como base o amor e o respeito. Parece óbvio, mas não é. Porque as pessoas confundem o amor, e muitas vezes fazem projeções e idealizações sobre o outro, principalmente nos relacionamentos amorosos.

Estamos vivendo um relacionamento abusivo quando não podemos ser quem somos. Quando não somos aceitos. Quando tentam nos mudar ou moldar. Quando perdemos a nossa espontaneidade e autenticidade. Quando perdemos a nossa identidade. Quando deixamos de nos conectar com a nossa alma para agradar ao outro. 

Vivemos um relacionamento abusivo quando condições são impostas e existe um desejo de controle do outro sobre nossas vidas. A impressão que temos é que estamos vivendo em um terreno minado. E logo passamos a viver em uma campo de batalha.

Existem alguns comportamentos do parceiro que temos ao nosso lado que mostram que estamos diante de uma situação de maus tratos, de um relacionamento abusivo. Alguns exemplos:

1. Seu parceiro começa a criticá-la na frente de outras pessoas, muitas vezes mandando você calar a boca e dizendo que está falando muita besteira.

2. Seu parceiro fala mal da sua aparência, te colocando para baixo. Lembre-se: Sinceridade sem empatia é crueldade.

3. Seu parceiro desestimula seus sonhos, não comemora suas conquistas, não apoia suas escolhas. Torna-se um sabotador, porque percebe que você existe sem ele. 

4. Seu parceiro começa a fazer chantagem emocional, não respeita as tuas vontades, fala que se você fizer ou não fizer alguma coisa que ele quer é porque você não o ama. Aí ele passa a fazer ameaças, diz que vai terminar a relação se não for como ele quer. Se ele é inseguro ou desconfiado, isso é um problema dele, que ele tem que resolver com ele e você não tem nada a ver com isso. 

5. Seu parceiro começa a ter um ciúmes doentio, querendo te controlar e faz com que você se sinta culpada o tempo todo. Muitas vezes ele começa a te responsabilizar pelos fracassos da vida dele. Você vive como se estivesse sempre pisando em ovos.

Esses foram alguns exemplos. Existem vários. São pequenos sinais. Se a partir disso, a agressão deixar de ser psicológica e passar a ser física, lamento informar, mas você tem grande chance de ter entrado em um caminho sem volta. Cuidado.

Se você está vivendo em um relacionamento em que a agressão física virou uma coisa banal, caia fora. Não é fácil, eu sei. Procure ajuda.

Primeiro: termine o relacionamento aos poucos. Crie uma rede de apoio (amigos, família). Existem ONGs e órgãos públicos que podem ajudar. Crie uma realidade onde você possa sobreviver longe da pessoa que te maltrata.

Coragem! As pessoas podem mudar, é claro. Podem melhorar. Essa é uma das razões pelas quais muitas vezes ficamos em uma relação abusiva. Porque sempre achamos que o outro pode mudar e que a relação vai melhorar. Existem os momentos bons, que se misturam aos momentos infernais, e são nesses momentos que a gente vai se iludindo, vai abusando da nossa própria esperança, fantasiando que vai conseguir mudar o outro com o “nosso amor”, que ele vai nos dar valor. Mas raramente isso acontece. 

Muitas mulheres também permanecem em um relacionamento assim por medo. Medo de ficar sozinha. Medo de não ter como sobreviver sem o outro. Ou até mesmo, medo da agressão física ou coisa pior. Nesses casos, já sabe: CORAGEM!

Eu já vivi relações abusivas. Durante muito tempo o outro era o centro das minhas atenções e eu achava que receberia em troca tudo o que eu merecia de bom. Eu também já permiti que me maltratassem (lembra sobre o que eu falei da responsabilidade de quem sofre os maus tratos?).

Mas um dia eu passei a olhar mais pra mim. Comecei a cuidar mais de mim. E o início dessa mudança interna na minha vida foi quando eu recebi o diagnóstico da Leucemia Mielóide Crônica. Desde então eu me coloquei em primeiro lugar na minha vida. E quando isso acontece, a chance do outro te respeitar mais aumenta significativamente. Somos nós mulheres que mostramos para o outro como ele pode nos tratar. Não tenho como colocar limite no outro, mas tenho como colocar limite em mim.

A gente só começa a cuidar da gente quando começamos a conhecer os nossos próprios limites. Você precisa conhecer a si, saber o que pode fazer e o que não pode, e, principalmente, nesses casos, saber o que você consegue aguentar. Precisamos buscar a nossa essência e não ficar preso à verdade do outro. Precisamos aprender a viver com a gente mesmo, dentro do nosso “mundinho” (e aqui me refiro ao nosso ser), cultivando o nosso interior.

Só assim estaremos prontas para receber as coisas boas da vida. Assim como as pessoas. Quando a gente vem em primeiro lugar, quando a gente se ama, quando não temos medo das adversidades e de se decepcionar com as pessoas que a gente convive, a gente aceita a vida. A vida se apresenta por inteiro, ela se torna um presente e o outro se torna apenas o mensageiro.

O amor entre duas pessoas é aceitação e respeito. É estímulo para transformação e crescimento. Ninguém tem o direito de limitar teus pensamentos e teus sentimentos. 

Escrevi esse texto baseado nas minhas experiências de vida e tendo como referência alguns textos sobre o assunto que eu li. Acho que não é preciso um diploma para expormos a nossa opinião, a vida em si já é um grande currículo para todos nós.

Espero que possa ter ajudado um pouco a ampliar o seu olhar. Torço por você. Por nós.

Abraço!

Carina Bernardi, Bacharel em Direito, Funcionária Pública, mãe da Vitória e da Nina e mais tudo o que eu quiser.