Masculinidade Tóxica

Desde muito cedo os meninos são pressionados a reprimirem suas emoções e sua sensibilidade. Através da cultura popular, do sistema educacional, da forma como são criados nas suas famílias de origem, são incentivados a esconderem seus sentimentos e suas fragilidades. Quantos homens ouviram na sua infância as frases: “Seja Homem”; “Homem não chora”; “Isso é coisa de Mulherzinha”. Esta construção social de gênero é devastadora para a subjetividade dos homens. O temor de ser visto como fraco perante os outros homens inicia na primeira infância e continua por toda a vida.

Esta rejeição a tudo o que é visto como feminino é uma das causas da chamada “masculinidade tóxica”. E todos nós saímos perdendo: meninos, meninas, homens e mulheres. Construímos uma ideia de masculinidade que não dá a chance aos meninos de se sentirem seguros com sua masculinidade, tendo que afirmá-la o tempo todo. Com isto, perdem também a espontaneidade, a autenticidade, a capacidade de serem empáticos e de se relacionarem de forma saudável. Na adolescência, época em que se pode vivenciar as primeiras relações sexuais, a intimidade masculina em geral passa a ser possível apenas pela via sexual, uma vez que a via afetiva é desqualificada pelos seus pares. Existe um sistema social que os vigia e os cobra, através de ameaças diretas ou veladas de outros homens. Beber e consumir drogas passam a ser formas de burlar estas regras sociais que afirmam que eles precisam conter suas emoções: podem se abraçar, se beijar, ter relações sexuais sem sentirem o medo de estarem expostos em uma relação de intimidade.

A maneira como os meninos são criados faz com que eles escondam sua vulnerabilidade, seus sentimentos naturais e suas capacidades de serem empáticos,  atrás da máscara da masculinidade. Os meninos são expostos a mídias e a brinquedos violentos, o que os pode tornar menos sensíveis à dor e ao sofrimento dos outros; e mais temerosos e inseguros em relação ao mundo. Quando sentem dor emocional, em geral sentem vergonha de pedir ajuda. O fato de não expressarem suas emoções implica na impossibilidade de serem autênticos e livres daquilo que gera sofrimento psíquico.  Pagamos com isso, um preço muito alto em nossa sociedade. Os homens possuem os maiores índices de suicídio, dependência química  e são a maior parte da população carcerária. Tendem a utilizar a violência para resolver seus problemas. A cada 2 segundos uma mulher é vitima de violência verbal ou física no Brasil*. A homofobia encontra aí terreno fértil e nos revela a aversão estigmatizada do que é feminino. Os indivíduos passam a odiar nas pessoas LGBT´s aquilo que temem em si mesmos.

Habilidades físicas, conquistas sexuais, sucesso econômico, ser o mais forte, o mais veloz, o maior e o melhor são pressões sociais que os homens sofrem que podem os deixar inseguros, sentindo que não são bons o suficiente.  Quando tiramos estes estereótipos da hiper-masculinidade – da masculinidade tóxica – os homens podem ser quem desejam ser  e descobrem que podem ter aspectos femininos dentro de si e isto os torna seres humanos mais integrados. Descobrem que podem conectar o coração à racionalidade, e assim, se tornarem seres humanos mais completos e livres. Há liberdade fora das definições rígidas de masculinidade.

 O tema das masculinidades é uma discussão ética, não apenas uma discussão de gênero. É fundamental que possamos enquanto sociedade redefinir a força do homem não como um poder sobre os outros, mas sim, como uma busca por justiça, igualdade e eqüidade, combatendo todos os tipos de violência e a desigualdade social. Masculinidade tóxica fala de relações de poder, de dominação, de que existe um forte e um fraco. Vivemos numa sociedade colonialista, patriarcal, sexista e homofóbica. Praticar novas masculinidades é praticar uma nova sociedade, propondo um outro modelo de civilização.

*Dados de 2018 do portal “Relógios da Violência” do Instituto Maria da Penha.

Autora: Roberta Sirangelo Machado – Psicóloga Clínica CRP 14442